
Quando se fala em sustentabilidade nas empresas, o olhar costuma ir para o que é visível: descarte de lixo, consumo de papel, copos plásticos ou uso de energia elétrica. Mas boa parte dos impactos ambientais está escondida em rotinas que parecem inofensivas: arquivos armazenados na nuvem, equipamentos ligados sem uso, eletrônicos esquecidos em gavetas, desperdício de alimentos na copa e compras feitas sem critérios ambientais.
Esse é um dos alertas da campanha Sescap-PR + Verde: sustentabilidade não depende apenas de grandes projetos. Ela também começa na forma como empresas de serviços organizam sua operação diária, consomem recursos e tomam decisões.
Computadores, impressoras, carregadores, monitores, máquinas de café, roteadores e aparelhos em modo stand-by continuam consumindo energia mesmo quando parecem “parados”. No Brasil, as edificações representaram 47% do consumo de eletricidade do país em 2023, com demanda de 290 TWh, segundo o Atlas da Eficiência Energética Brasil 2024, da Empresa de Pesquisa Energética. O mesmo levantamento aponta que edifícios comerciais e públicos utilizam majoritariamente eletricidade, com 73% de participação na matriz energética dessas edificações.
O que fazer: criar uma rotina de desligamento ao fim do expediente, usar réguas inteligentes, revisar equipamentos que ficam sempre ligados e configurar computadores, monitores e impressoras para modo de economia de energia.
A digitalização reduziu o uso de papel, mas aumentou o consumo de dados. Armazenamento em nuvem, videoconferências, backups, sistemas online e uso crescente de inteligência artificial dependem de data centers, estruturas que demandam energia para processamento e refrigeração. No Brasil, estudo da Brasscom aponta que os data centers representaram 1,7% do consumo de energia elétrica em 2024, equivalente a 11,3 TWh, e a projeção é que esse consumo chegue a 3,6% do total nacional em 2029, ou 27,3 TWh.
O que fazer: limpar periodicamente arquivos em nuvem, excluir versões duplicadas, evitar anexos pesados desnecessários, reduzir e-mails sem função prática e manter câmeras desligadas em reuniões em que o vídeo não seja essencial.
Celulares antigos, teclados, mouses, notebooks, cabos, carregadores e equipamentos obsoletos muitas vezes ficam guardados sem destinação correta. O Brasil é o maior gerador de lixo eletrônico da América Latina e o segundo maior das Américas, com 2,4 milhões de toneladas geradas em 2022, segundo estudo publicado na revista Environment, Development and Sustainability, com base no Global E-waste Monitor 2024. Outro levantamento citado pelo Recicla Sampa aponta que apenas 3% do lixo eletrônico gerado no país foi coletado e reciclado formalmente.
O que fazer: fazer inventário dos eletrônicos da empresa, priorizar manutenção antes da substituição, doar equipamentos ainda funcionais e destinar itens sem uso para pontos de logística reversa certificados.
A copa da empresa também concentra impactos invisíveis. Sobras de alimentos, cápsulas de café, copos descartáveis, embalagens e restos orgânicos parecem pequenos individualmente, mas se acumulam todos os dias. No Brasil, cerca de 45% dos resíduos sólidos urbanos são orgânicos, principalmente restos de alimentos e resíduos de jardinagem, segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. A disposição inadequada desses resíduos em aterros e lixões é apontada como a segunda maior fonte de emissões de metano no país, de acordo com o SEEG.
Além disso, o desperdício de alimentos segue como um desafio relevante: relatório reunido pelo Pacto Contra a Fome aponta que, das 161,3 milhões de toneladas de alimentos produzidas anualmente no Brasil, cerca de 55,4 milhões de toneladas são desperdiçadas ao longo da cadeia, sendo 7,9 milhões de toneladas no varejo alimentar e serviços de alimentação.
O que fazer: dimensionar melhor coffee breaks, trocar descartáveis por itens reutilizáveis, separar resíduos orgânicos, estimular compostagem quando possível e criar ponto de coleta para cápsulas, óleo de cozinha e embalagens recicláveis.
Torneiras pingando, descargas desreguladas, limpeza excessiva com produtos agressivos e ambientes pouco ventilados também entram na conta da sustentabilidade. A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico estima que a retirada total de água no Brasil seja de aproximadamente 90 trilhões de litros por ano, com agricultura irrigada, abastecimento urbano e indústria de transformação respondendo por cerca de 85% desse volume. A demanda setorial por água pode crescer cerca de 30% até 2040, em comparação com 2022.
Em edificações comerciais, como escritórios, restaurantes e hotéis, o uso de água costuma estar associado principalmente a ambientes sanitários, sistemas de resfriamento de ar-condicionado e irrigação. Já a Anvisa alerta que compostos orgânicos voláteis podem estar presentes em ceras, mobiliário, produtos de limpeza, solventes, tintas, colas e materiais de revestimento, recomendando a escolha de produtos com menor volatilização e toxicidade.
O que fazer: revisar vazamentos, instalar arejadores e torneiras econômicas, acompanhar o consumo mensal de água, priorizar produtos de limpeza com menor toxicidade e garantir ventilação adequada nos ambientes.
O risco ambiental invisível não está apenas no grande descarte ou na grande emissão. Está na repetição diária de pequenas práticas que passam despercebidas: um equipamento sempre ligado, um arquivo duplicado, um eletrônico sem destino, uma compra sem critério, uma torneira vazando ou um resíduo orgânico descartado sem separação.
Para empresas de serviços, sustentabilidade é também gestão. É reduzir desperdícios, melhorar processos, cuidar das pessoas e tomar decisões mais conscientes. Essa é a proposta do Sescap-PR + Verde: mostrar que pequenas ações, quando incorporadas à rotina, geram grandes resultados para o meio ambiente, para a operação e para a cultura empresarial.
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