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Artigo: Os desafios da propriedade das empresas familiares com a troca de gerações

Publicado em 20/12/2017

* Monique de Souza Pereira e Nelson Luiz Paula de Oliveira

O universo das empresas de controle familiar é vasto e apresenta uma série de nuances que interferem diretamente no desempenho empresarial. Ao analisar a propriedade, a gestão e a família, forças que interferem diretamente sobre as empresas, é possível identificar seus principais desafios por gerações.

Muitos dos dilemas e angústias enfrentados são causados pela passagem do tempo. As famílias são uma série infindável de entradas de pessoas por meio de casamentos e nascimentos. E também de saídas por meio de divórcios e mortes. Estes movimentos afetam diretamente a propriedade quando novos proprietários assumem a responsabilidade pela sua condução em razão de falecimentos ou pela passagem do bastão. Dessa forma, a propriedade vai passando de uma geração para outra.

A maioria das empresas inicia suas atividades no estágio do proprietário controlador, em que são administradas por um único dono ou por um casal. O principal desafio dessa fase está na dificuldade de capitalização, pois os bancos tendem a ser exigentes e conservadores na avaliação para concessão de crédito, sendo necessário utilizar as economias do fundador e de sua família. Outro desafio é encontrar o equilíbrio entre a autonomia do patriarca fundador na direção da empresa e a retenção de talentos dedicados e construtivos, uma vez que os fundadores tendem a não delegar tarefas e acreditam que precisam estar presentes em todos os momentos e decisões, inibindo a atuação dessas pessoas.

Já no estágio da sociedade entre irmãos, o controle é partilhado entre irmãos e irmãs, o que acontece geralmente na segunda geração. Os desafios dessa fase são inúmeros, dentre eles: desenvolver um método efetivo no compartilhamento do controle entre os novos proprietários e incentivar as próximas gerações a participarem desde cedo do negócio familiar; definir o papel dos sócios não-funcionários possibilitando aos mesmos oportunidades para a venda de suas ações caso não tenham interesse de se manterem no negócio da família; criar uma boa comunicação entre os membros familiares; desenvolver Conselhos de Família e estruturas de controle como Conselhos Consultivos ou de Administração; gerenciamento diligente de capital, pois nessa fase ocorre um aumento na quantidade de pessoas que são proprietárias, mas não trabalham na empresa, e o equilíbrio de prioridades entre reinvestimentos e dividendos.

Por fim, no estágio do consórcio entre primos, o controle é exercido por primos de diferentes ramos da família, sem que nenhum deles exerça sozinho o controle das decisões em razão da diluição da propriedade. Quando atingem esse estágio, as empresas geralmente encontram-se na terceira geração. Os principais desafios são: administrar a complexidade da família e do grupo de acionistas tendo em vista os conflitos interpessoais; a distância entre o convívio dos membros; e a ausência de interesse de atuação na empresa da família. Outro desafio nessa fase é criar um mercado interno viável entre sócios, de modo que membros da família tenham a opção de vender suas participações para investirem em outros projetos e sonhos que viabilizem realizações pessoais.

Tantos são os desafios que interferem no dia a dia dessas empresas ao longo dos anos, que as consideramos estruturas especiais. Vencer cada etapa é uma vitória, mas a maioria não consegue ultrapassar tantas barreiras, seja por falta de informação, de organização ou até mesmo de vontade. Dessa forma, o que precisamos fazer é auxiliá-las a trilharem o caminho do sucesso, utilizando-se de controles eficazes, constante participação e aperfeiçoamento dos membros da família e instrumentos jurídicos bem redigidos para que a propriedade se mantenha de maneira segura com as famílias por várias gerações.

 

Monique de Souza Pereira, especialista em Direito Tributário pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ/RJ, em Fiscalidad Internacional − Universidad de Castilla-La Mancha/Espanha e em Fusões e Aquisições, Reorganizações Societárias e Due Diligence e Direito Societário – FGV/SP. Sócia do escritório Souza Pereira Advogados em Curitiba.

Nelson Luiz Paula de Oliveira, administrador formado pela FAE Business School, com especialização em finanças, estratégia, reestruturação de empresas e renegociações. Coordenador do Capítulo Paraná do IBGC; Especialista em Governança Corporativa e Familiar com Certificação pelo IBGC. Atua como Consultor nas áreas econômico-financeira e estratégica de diversas empresas.

 

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