Papel higiênico no vaso sanitário: o que acontece quando você descarta errado

Notícia publicada em 10/07/2026

Nota técnica da ABES mostra que o papel higiênico vendido no Brasil se desintegra cinco vezes menos do que o europeu, um dos fatores que aumentam o risco de entupimento na rede de esgoto do país

Um estudo da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), assinado por pesquisadores da UFMG, testou 11 marcas de papel higiênico do Brasil, da Colômbia, da Espanha e da França. As marcas brasileiras se desintegraram, em média, 10% quando submetidas a alta turbulência em água. As estrangeiras, 52%. O motivo é o próprio produto: papel mais macio, com mais camadas e maior gramatura resiste mais à quebra, o mesmo atributo vendido como conforto.

O problema se soma à infraestrutura. A norma técnica brasileira permite redes coletoras de apenas 100 milímetros de diâmetro, contra 150 mm no País de Gales, 200 mm nos Estados Unidos e em Singapura, e 250 mm no Canadá, com a menor velocidade mínima de escoamento da comparação.

Essa engenharia convive com uma rede de saneamento ainda distante da universalização: segundo o Ranking do Saneamento 2025, do Instituto Trata Brasil, 44,8% dos brasileiros não têm coleta de esgoto, e a média nacional de tratamento do esgoto gerado é de apenas 51,8%.

Antes de trocar de hábito, vale isolar o verdadeiro vilão da rede. Em vistorias, a Sanepar aponta o lenço umedecido como o pior item encontrado nas tubulações do Paraná, porque, ao contrário do papel higiênico, ele não se desfaz e permanece intacto por semanas dentro do cano. Em Brasília, a Caesb registra mais de quatro mil ações de limpeza por mês na rede de esgoto, causadas por lenços umedecidos, óleo, absorventes e fraldas.

Falta ainda uma peça no Brasil: regulação. Estados Unidos e países da União Europeia exigem testes de desintegração antes de autorizar a rotulagem “pode descartar no vaso”. No Brasil, essa exigência não existe, e dois projetos de lei sobre o tema seguem parados no Congresso desde 2017 e 2019.

Na prática

  1. Lenço umedecido, absorvente, cotonete e fralda vão sempre para o lixo, nunca para o vaso.
  2. Em construções antigas, com tubulação estreita, reduzir a quantidade de papel por descarga evita entupimento mais do que qualquer selo na embalagem.
  3. Onde a rede permitir o descarte no vaso, papel higiênico reciclado ou certificado consome menos água e menos celulose virgem, sem abrir mão da praticidade.

Fontes: ABES Cadernos Técnicos de Engenharia Sanitária e Ambiental, v.3, n.4 (2023) | Instituto Trata Brasil, Ranking do Saneamento 2025 | Governo do Paraná / Sanepar, orientação sobre entupimentos | Agência Brasília / Caesb, limpeza mensal da rede de esgoto

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