Sobreposição de crises afeta avanço, diz ONU
Relatório mostra avanços em saúde, energia, saneamento e acesso à internet, mas aponta que crise climática, conflitos e falta de financiamento ameaçam o cumprimento da Agenda 2030
Faltando menos de cinco anos para o prazo da Agenda 2030, apenas 36% das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estão no caminho certo ou apresentam progresso moderado para serem alcançadas. O dado faz parte do Relatório dos ODS 2026, divulgado nesta terça-feira (7) pela Organização das Nações Unidas (ONU), que alerta para a necessidade de acelerar ações diante do agravamento da crise climática, dos conflitos armados e da redução do financiamento internacional.
Adotados por todos os países-membros da ONU em 2015, os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável formam uma agenda global para erradicar a pobreza, proteger o meio ambiente, reduzir desigualdades e promover prosperidade até 2030. Os objetivos abrangem temas como saúde, educação, igualdade de gênero, energia limpa, cidades sustentáveis, ação climática e conservação da biodiversidade.
Em um cenário de emergência climática, eles são considerados um roteiro essencial para fortalecer a resiliência das sociedades e promover um desenvolvimento capaz de conciliar crescimento econômico, inclusão social e proteção ambiental. Em 2025, o Brasil lançou oficialmente o ODS 18, que visa eliminar o racismo e a discriminação étnico-racial no país.

Segundo o relatório, das 139 metas com dados disponíveis, 49% avançam em ritmo lento, enquanto 15% apresentam retrocesso em relação aos níveis registrados em 2015. Ainda assim, a ONU destaca que a última década produziu “resultados concretos” quando houve investimentos, políticas públicas consistentes e cooperação internacional.
Desde a adoção dos ODS, quase um bilhão de pessoas passaram a ter acesso à água potável gerenciada com segurança, enquanto 1,2 bilhão conquistaram acesso ao saneamento seguro. As novas infecções por HIV caíram 30% entre 2015 e 2024, as mortes relacionadas à AIDS diminuíram 35%, a eletricidade passou a atender 92% da população mundial e o acesso à internet saltou de 40% para 74%. Pela primeira vez, mais da metade da população global também passou a contar com algum tipo de proteção social.
Para a ONU, esses resultados demonstram que os ODS funcionam quando acompanhados de financiamento adequado, políticas eficazes e monitoramento baseado em dados. Atualmente, a base global reúne mais de 3,2 milhões de registros sobre os indicadores dos objetivos, permitindo acompanhar onde os avanços ocorrem e onde persistem os maiores desafios.
Sobreposição de crises compromete avanços
Apesar dos progressos, o relatório alerta que a sobreposição de crises compromete o ritmo das transformações. Uma em cada dez pessoas ainda vive em extrema pobreza, cerca de 2,3 bilhões enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave e mais de 150 milhões de crianças sofrem com atraso no crescimento. Nenhuma das metas relacionadas à igualdade de gênero está no caminho esperado, enquanto o número de pessoas afetadas por desastres relacionados ao clima mais que dobrou desde 2015.
A crise climática aparece como um dos principais fatores que ameaçam o cumprimento da Agenda 2030. Em 2025, a temperatura média global atingiu 1,43 °C acima dos níveis pré-industriais, e a concentração de dióxido de carbono na atmosfera alcançou o maior patamar em cerca de dois milhões de anos. Ao mesmo tempo, cresce o risco de extinção de espécies, enquanto a proteção das áreas mais importantes para a biodiversidade permanece insuficiente.
O relatório também destaca que conflitos, desaceleração econômica, aumento da dívida dos países em desenvolvimento e uma queda recorde de 23,1% na ajuda oficial ao desenvolvimento, registrada em 2025 e puxada por cortes feitos pelo governo dos EUA, ampliam as dificuldades para cumprir os objetivos. Segundo a ONU, o déficit anual de financiamento da Agenda 2030 já chega a cerca de US$ 4 trilhões.
“O que mais de uma década de implementação demonstrou é que avanços significativos são possíveis”, afirmou o subsecretário-geral da ONU para Assuntos Econômicos e Sociais, Li Junhua. Segundo ele, o desafio agora é ampliar rapidamente as soluções que já deram resultados, com mais investimentos, inovação e cooperação internacional.
Na avaliação do secretário-geral da ONU, António Guterres, ainda é possível cumprir a Agenda 2030, desde que os próximos anos sejam marcados por decisões políticas capazes de acelerar a implementação dos objetivos. “Guiados pelos dados deste relatório, nossa visão da Agenda 2030 continua ao nosso alcance. Juntos, vamos dar um impulso final decisivo para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e construir um futuro saudável e próspero para todos”, afirmou.
Destaques do Relatório ODS 2026
Avanços
– Apenas 36% das metas apresentam progresso suficiente ou moderado para serem alcançadas até 2030.
– Quase 1 bilhão de pessoas conquistaram acesso à água potável segura desde 2015.
– 1,2 bilhão passaram a ter acesso ao saneamento gerenciado com segurança.
– As novas infecções por HIV caíram 30% e as mortes por AIDS, 35%.
– A eletricidade atende 92% da população mundial.
– O acesso à internet cresceu de 40% para 74%.
– A capacidade de geração de energia renovável per capita mais que dobrou desde 2015.
Principais desafios
– 49% das metas avançam lentamente e 15% estão em retrocesso.
– Uma em cada dez pessoas permanece em situação de extrema pobreza.
– 2,3 bilhões enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave.
– O número de pessoas afetadas por desastres climáticos mais que dobrou desde 2015.
– As temperaturas globais atingiram 1,43 °C acima dos níveis pré-industriais em 2025.
– A ajuda internacional ao desenvolvimento caiu 23,1% em 2025, a maior redução já registrada.
– O déficit anual de financiamento dos ODS alcança aproximadamente US$ 4 trilhões.
Fonte: Vanessa Oliveira, do Um Só Planeta
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